É porque me lembro do teu rosto
onde escondeste o medo na distância
e da lonjura onde plantaste
a bandeira derrotada da desolação e o frio
no espelho baço da memória
o rosto duro e fechado e seco de quem teme a d-or
que se define por contraste
como a c-or
e é também película sensível
e oposto no espectro do am-or
É porque me lembro das tuas mãos
esquecidas para o íntimo
lembradas para o verso e não a palma
mais perto de soco que carícia
mais agudas do que côncavas
espiralmente pregadas nelas próprias
para abrigar a linha do coração
ferida
É porque me dá tristeza umas mãos tão lindas
e nada belo para fazer com elas
a não ser brincadeiras de criança escondida
túmulos do medo
dedo que se torna unha e unha garra
e garra ferro e ferro grade
trespassada até abrir de novo as mãos
que largam os cabos da vida e a verdade
para acariciar abraçar segurar agarrar
muito dentro muito fundo muito forte
a distância o adeus o delírio
É porque te vi te soube te fui
que sei da d-or sei do mundo e sei da morte
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
epílogo em jeito de janela
Todos meus erros descendem do excesso,
não da penúria.
Fabrício Carpinejar, Reserva de Chuvas
Não se pode crescer por vontade de superar
o que não se compreende.
Não se pode descer do excesso de vazio
que convoca o excesso de efeito
para cobrir o código negro que o habita.
Deve ser por isso que gosto de constelações.
São tão belas sobre o código negro.
Além disso,
basta combinar estrelas para se extirpar o espelho.
(in Às Portas do Jardim, 2005)
não da penúria.
Fabrício Carpinejar, Reserva de Chuvas
Não se pode crescer por vontade de superar
o que não se compreende.
Não se pode descer do excesso de vazio
que convoca o excesso de efeito
para cobrir o código negro que o habita.
Deve ser por isso que gosto de constelações.
São tão belas sobre o código negro.
Além disso,
basta combinar estrelas para se extirpar o espelho.
(in Às Portas do Jardim, 2005)
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
era
era o que lá se tinha feito até então
um entrar e sair de almas
na correnteza dos dias
uma porta que se batia
outra que encostava
viagens e vaivéns
rumor de quem tenta abrir e não consegue
uns para sairem pela vida fora
outros para entrarem pela alma dentro
até à cozinha
e sem licença
e outros
que valiam a pena
ali à espera de um olhar ao encontro
os sorrisos francos
as mãos abertas
os corações pacientes
e os olhos.
os dela esquecidos
do que havia de vir
do que podia ser, ainda
do que estava a ser sem dar por nada
esquecidos do possível
improvável mas com os diabos possível
lembrados apenas do que nunca foi
a saudade que é mania
de olhar para o que falta
e a vontade a força de vontade
de virar o pescoço e ir ao encontro
do presente o que há
a cócega
o riso
o lilás
as mãos macias
o frio de manhã
que nos acorda para o que somos
para o que podemos ser
o hoje que nos bate no rosto
e nos faz lembrar
que tudo começa
a cada instante
daqui a pouco
é quase
já
um entrar e sair de almas
na correnteza dos dias
uma porta que se batia
outra que encostava
viagens e vaivéns
rumor de quem tenta abrir e não consegue
uns para sairem pela vida fora
outros para entrarem pela alma dentro
até à cozinha
e sem licença
e outros
que valiam a pena
ali à espera de um olhar ao encontro
os sorrisos francos
as mãos abertas
os corações pacientes
e os olhos.
os dela esquecidos
do que havia de vir
do que podia ser, ainda
do que estava a ser sem dar por nada
esquecidos do possível
improvável mas com os diabos possível
lembrados apenas do que nunca foi
a saudade que é mania
de olhar para o que falta
e a vontade a força de vontade
de virar o pescoço e ir ao encontro
do presente o que há
a cócega
o riso
o lilás
as mãos macias
o frio de manhã
que nos acorda para o que somos
para o que podemos ser
o hoje que nos bate no rosto
e nos faz lembrar
que tudo começa
a cada instante
daqui a pouco
é quase
já
domingo, 14 de novembro de 2010
contributo
afinal de contas é tudo tão simples. quem conta um conto faz crescer os dentes e acrescenta um ponto. e assim eis-me pronta. pronta-a-colocar dois X romanos na carta de condução, no direito ao voto, na carta sem condição, no direito ao colo. pronta-a-aceitar meu contributo para o bem e o mal próprio e alheio, para as melhoras, para as pioras, para as pontes e as quedas, para as falésias e os caminhos, alguns céus, vários infernos, as mudanças, os encontros, as chamadas feridas, as entradas, as saídas, o segundo sol, as segundas chuvas, os segundos frios, as memórias baças, fracas, perdidas, os adeuses, os vivas, a cordura, o delírio, o choro, o fado, a moda, a sorte, a vontade, o destino.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
celebro
celebro
celebro porque estuve muerta
y he resucitado
porque estuve seca
y bebo
y humedezco
y vivo
y viva crezco
celebro
celebro porque hay oscuridad y lluvia para todos
los gustos y los disgustos las luces y las sombras
porque tejen las arañas su esperanza
de una mosca despistada
y las comprendo
celebro
celebro porque tocar es tan bello
incluso cuando no se toca
incluso cuando se toca el invierno
celebro
celebro porque es hoy
y decir no duele
y escuchar no marchita
celebro, celebro, celebro
celebro porque alumbrar el día
es cosa de otros
y así puedo yo recibir el sol
por la mañana
y desperezar mis esperanzas
y desmantelar mis mentiras
y organizar mis gozos
y ensañarme con mis sueños
celebro
celebro porque estuve muerta
y he resucitado
porque estuve seca
y bebo
y humedezco
y vivo
y viva crezco
celebro
celebro porque hay oscuridad y lluvia para todos
los gustos y los disgustos las luces y las sombras
porque tejen las arañas su esperanza
de una mosca despistada
y las comprendo
celebro
celebro porque tocar es tan bello
incluso cuando no se toca
incluso cuando se toca el invierno
celebro
celebro porque es hoy
y decir no duele
y escuchar no marchita
celebro, celebro, celebro
celebro porque alumbrar el día
es cosa de otros
y así puedo yo recibir el sol
por la mañana
y desperezar mis esperanzas
y desmantelar mis mentiras
y organizar mis gozos
y ensañarme con mis sueños
celebro
se encostas
quem pediu asas
não percebo nada de nuvens
muito menos cores
ah as pombas essas armadilhas
o papo enche-se no chão
e grão a grão
por isso
seja como for
se encostas
deves saber que
não será ao passado
não será às Itacas
não será de graça
não percebo nada de nuvens
muito menos cores
ah as pombas essas armadilhas
o papo enche-se no chão
e grão a grão
por isso
seja como for
se encostas
deves saber que
não será ao passado
não será às Itacas
não será de graça
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
ser
escrevo no que escrevo
como sou a que sou
não tenho língua nem bandeira
tão-só um caminho
à noite é o luar
de dia é o sol
como sou a que sou
não tenho língua nem bandeira
tão-só um caminho
à noite é o luar
de dia é o sol
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
acima de pedra
o que hei de eu fazer se
acima de pedra
tudo me dá ternura
e mesmo a pedra mais simples
de todas as pedras
a mais pisada anônima trabalhada
(o tempo pode ser arte maior)
é minha noiva viva e à espera de festas
o que hei de eu fazer se
sei que os cadernos são cemitérios
e não conheço corpos
apenas olhos
nem sexos
apenas dedos
acima de pedra
tudo me dá ternura
e mesmo a pedra mais simples
de todas as pedras
a mais pisada anônima trabalhada
(o tempo pode ser arte maior)
é minha noiva viva e à espera de festas
o que hei de eu fazer se
sei que os cadernos são cemitérios
e não conheço corpos
apenas olhos
nem sexos
apenas dedos
terça-feira, 31 de agosto de 2010
anomía
alguien se oculta callado en un recodo
habita estancias del cerebro
sin anunciarse aparece y se sienta
desliza un pie y corta un lazo
desde hace tiempo que noto
que alguien desordena estas letras
habita estancias del cerebro
sin anunciarse aparece y se sienta
desliza un pie y corta un lazo
desde hace tiempo que noto
que alguien desordena estas letras
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Carta a adília lopes
querida adília
se soubesses
que só me convidavam mesmo para dançar
numa cama ou num carro
com músicas que não me pertenciam
se soubesses
que eu também sou inteligente suficiente
para saber que é preciso ser bonita
mas depende para quê
porque deus não me deu gatos
mas infelizmente me deu namorados
alguns negros outros brancos
mas todos martírios quase todos criminosos
que me fizeram mil maldades
e uma maldade muito grande
se soubesses
que tive que mandá-los todos embora
com sete pedras na mão
e mais de um pontapé
por causa daquela maldade muito grande
mas tão grande que cresceu degrau a degrau
como um poema não raciocinado
até ganhar a forma do meu corpo
e agarrar a minha alma e rasgá-la
em pedaços que depois guardei na cesta dos trapos
para fazer um vestido para a minha filha
não precisar de homens poços gatos
querida adília
se soubesses que apesar de inteligente
da entropia não percebo nada
e talvez seja por isso que
não me restam energias
para precisar de namorados
se soubesses
que só me convidavam mesmo para dançar
numa cama ou num carro
com músicas que não me pertenciam
se soubesses
que eu também sou inteligente suficiente
para saber que é preciso ser bonita
mas depende para quê
porque deus não me deu gatos
mas infelizmente me deu namorados
alguns negros outros brancos
mas todos martírios quase todos criminosos
que me fizeram mil maldades
e uma maldade muito grande
se soubesses
que tive que mandá-los todos embora
com sete pedras na mão
e mais de um pontapé
por causa daquela maldade muito grande
mas tão grande que cresceu degrau a degrau
como um poema não raciocinado
até ganhar a forma do meu corpo
e agarrar a minha alma e rasgá-la
em pedaços que depois guardei na cesta dos trapos
para fazer um vestido para a minha filha
não precisar de homens poços gatos
querida adília
se soubesses que apesar de inteligente
da entropia não percebo nada
e talvez seja por isso que
não me restam energias
para precisar de namorados
Subscrever:
Comentários (Atom)