segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

adeus

assistir ao adeus dos nomes
sumindo como chuva
noutra erva
virando uma outra água
afastada
impossível ao tacto
do tempo do agora

despedir paisagens
que já não inquietam
noites com tendência para
nightmares
[palavra obscura
de qualidade líquida
maré noturna
a enfiar-se silenciosa
entre tudo o que somos
ventre sonhos lençóis]
não fazer mais sentido
e meus sentidos
voltarem a ser meus
embalos calmos
berços baloiços
dormidos

para o hoje o dia da luz serem
sonho de barco morno
ao longe pássaros risos
sol e pão com mel
de volta ao encontro
de um nós que
é

domingo, 20 de fevereiro de 2011

a vida

o pulo sobre o instante
a ponta do pé na água do passeio
de um dia de chuva
a ponta da língua
que não se torna verbo
num segundo que já foi
sorriso de Buda
com olhos de samurai
a leveza de tudo que nos acontece
e não chora nem ri por ninguém
porque choro e riso se alimentam
da renúncia ao instante que se vive

a vida
o mergulho sem garrafa
tudo o que serve à disciplina do salto
sem vara

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Delírio

É porque me lembro do teu rosto
onde escondeste o medo na distância
e da lonjura onde plantaste
a bandeira derrotada da desolação e o frio
no espelho baço da memória
o rosto duro e fechado e seco de quem teme a d-or
que se define por contraste
como a c-or
e é também película sensível
e oposto no espectro do am-or

É porque me lembro das tuas mãos
esquecidas para o íntimo
lembradas para o verso e não a palma
mais perto de soco que carícia
mais agudas do que côncavas
espiralmente pregadas nelas próprias
para abrigar a linha do coração
ferida

É porque me dá tristeza umas mãos tão lindas
e nada belo para fazer com elas
a não ser brincadeiras de criança escondida
túmulos do medo
dedo que se torna unha e unha garra
e garra ferro e ferro grade
trespassada até abrir de novo as mãos
que largam os cabos da vida e a verdade
para acariciar abraçar segurar agarrar
muito dentro muito fundo muito forte
a distância o adeus o delírio

É porque te vi te soube te fui
que sei da d-or sei do mundo e sei da morte

domingo, 9 de janeiro de 2011

epílogo em jeito de janela

Todos meus erros descendem do excesso,
não da penúria.

Fabrício Carpinejar, Reserva de Chuvas




Não se pode crescer por vontade de superar
o que não se compreende.
Não se pode descer do excesso de vazio
que convoca o excesso de efeito
para cobrir o código negro que o habita.

Deve ser por isso que gosto de constelações.
São tão belas sobre o código negro.
Além disso,
basta combinar estrelas para se extirpar o espelho.


(in Às Portas do Jardim, 2005)

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

era

era o que lá se tinha feito até então
um entrar e sair de almas
na correnteza dos dias
uma porta que se batia
outra que encostava
viagens e vaivéns
rumor de quem tenta abrir e não consegue
uns para sairem pela vida fora
outros para entrarem pela alma dentro
até à cozinha
e sem licença

e outros
que valiam a pena
ali à espera de um olhar ao encontro
os sorrisos francos
as mãos abertas
os corações pacientes

e os olhos.
os dela esquecidos
do que havia de vir
do que podia ser, ainda
do que estava a ser sem dar por nada
esquecidos do possível
improvável mas com os diabos possível
lembrados apenas do que nunca foi
a saudade que é mania
de olhar para o que falta
e a vontade a força de vontade
de virar o pescoço e ir ao encontro
do presente o que há
a cócega
o riso
o lilás
as mãos macias
o frio de manhã
que nos acorda para o que somos
para o que podemos ser
o hoje que nos bate no rosto
e nos faz lembrar
que tudo começa
a cada instante
daqui a pouco
é quase

domingo, 14 de novembro de 2010

contributo

afinal de contas é tudo tão simples. quem conta um conto faz crescer os dentes e acrescenta um ponto. e assim eis-me pronta. pronta-a-colocar dois X romanos na carta de condução, no direito ao voto, na carta sem condição, no direito ao colo. pronta-a-aceitar meu contributo para o bem e o mal próprio e alheio, para as melhoras, para as pioras, para as pontes e as quedas, para as falésias e os caminhos, alguns céus, vários infernos, as mudanças, os encontros, as chamadas feridas, as entradas, as saídas, o segundo sol, as segundas chuvas, os segundos frios, as memórias baças, fracas, perdidas, os adeuses, os vivas, a cordura, o delírio, o choro, o fado, a moda, a sorte, a vontade, o destino.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

celebro

celebro

celebro porque estuve muerta
y he resucitado
porque estuve seca
y bebo
y humedezco
y vivo
y viva crezco

celebro

celebro porque hay oscuridad y lluvia para todos
los gustos y los disgustos las luces y las sombras
porque tejen las arañas su esperanza
de una mosca despistada
y las comprendo

celebro

celebro porque tocar es tan bello
incluso cuando no se toca
incluso cuando se toca el invierno

celebro

celebro porque es hoy
y decir no duele
y escuchar no marchita

celebro, celebro, celebro

celebro porque alumbrar el día
es cosa de otros
y así puedo yo recibir el sol
por la mañana
y desperezar mis esperanzas
y desmantelar mis mentiras
y organizar mis gozos
y ensañarme con mis sueños

celebro

se encostas

quem pediu asas

não percebo nada de nuvens
muito menos cores

ah as pombas essas armadilhas

o papo enche-se no chão
e grão a grão

por isso
seja como for
se encostas
deves saber que
não será ao passado
não será às Itacas
não será de graça

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ser

escrevo no que escrevo
como sou a que sou
não tenho língua nem bandeira
tão-só um caminho
à noite é o luar
de dia é o sol

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

acima de pedra

o que hei de eu fazer se
acima de pedra
tudo me dá ternura
e mesmo a pedra mais simples
de todas as pedras
a mais pisada anônima trabalhada
(o tempo pode ser arte maior)
é minha noiva viva e à espera de festas

o que hei de eu fazer se
sei que os cadernos são cemitérios
e não conheço corpos
apenas olhos
nem sexos
apenas dedos