Quem sabe se eram, tinham, sabiam.
Quem sabe ainda os deuses não tinham nascido para lhes dar nome, sempre com atraso, eles à espera, convocados para uma ceifa nos tempos em que ainda não havia cereais.
Quem sabe o que acontece aos primeiros que chegam, a vida ainda não era e quando é, é para se viver, talvez quando o tempo fosse inventado viessem outros para escrever, outros de mãos moles e ideias calejadas, revistas, tomadas da memória do que nunca foi escrito porque o tempo e o espaço não eram ainda possíveis nem necessários, quem sabe.
Quem sabe um dia já era tudo nascido e a mulher inventou-se para ser silêncio porque os gritos dos partos nunca foram belos.
Quem sabe depois ela disse que sim e queria dizer que não, ou não sabia ou queria era só dizer, porque dizer era estar, ser ou parecer, uma cópula de sintagmas que lhe devolvesse a nascença roubada, lhe levasse a dor condenada.
Quem sabe ela tinha sido antes uma coisa pousada por acaso, uma vontade vaga que de tanto anoitecer se tornou muda e de tão muda branca, e de tão branca lua ou luz de empréstimo, ou guia de escuridões que tudo dá no mesmo.
Quem sabe houve também uma outra coisa lançada de um passado eterno, uma noção de princípio que não foi, um sempre em frente inverso e infinito, um berço pronto para o embalo do relâmpago ao nascer.
Quem sabe não queria tornar-se ele mas que diabos estava na hora e os deuses com atraso como sempre, quem sabe daí a urgência, a decisão, o caminho aberto, o riso, e ainda a mão que rebenta dentre o nada e toca a pele branca, muda, lua.
Quem sabe por isso os deuses nunca mais chegavam e tiveram que inventar os nuncas e o sempre, criar o tempo e o sol porque era preciso comer qualquer coisa enquanto isso e trabalhar para comer e descansar para trabalhar, e o raio dos deuses que não apareciam, pouca vergonha.
Quem sabe foi preciso descansar e até morrer para deixar de esperar o que nunca tinha sido.
Quem sabe por isso a única cópula possível abandonou os sintagmas e brotou da necessidade e o que há-de ser de nós.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
sábado, 17 de outubro de 2009
chão vulcânico

fui eu que deixei o rasto verde na tua vegetação quando parti, tudo condensado numa praia vulcânica apesar que nunca procurei nada além do instante, nunca pediste nada além da presença. resta hoje o sonho cromático, a colagem das carícias e os lugares frequentados, as músicas ouvidas, essa arte intransponível, esse reino intraduzível das lembranças com cheiro a beijo, a wagner na veneza.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
qualquer coisa parecida com o medo
quando tenho medo
quando tenho medo não é quando temo o futuro, mas quando temo o passado.
quando tenho medo é do tempo em que acordar era o pesadelo, não do amanhecer de amanhã ou depois.
quando tenho medo, tenho medo mesmo quando sei que não conheço o que não conheço.
quando tenho medo, sei que sou criança tendo deixado a meninice.
quando tenho medo, tenho medo que me oiçam silenciar as vísceras.
quando tenho medo, combato até os anjos sem saber porquê.
quando tenho medo, sei que tenho medo.
quando tenho medo, tenho gosto de medo, tacto de medo, cheiro a medo, sinto a medo, sou o medo.
quando tenho medo.
quando sou cobarde
não sei que tenho medo.
quando tenho medo é do tempo em que acordar era o pesadelo, não do amanhecer de amanhã ou depois.
quando tenho medo, tenho medo mesmo quando sei que não conheço o que não conheço.
quando tenho medo, sei que sou criança tendo deixado a meninice.
quando tenho medo, tenho medo que me oiçam silenciar as vísceras.
quando tenho medo, combato até os anjos sem saber porquê.
quando tenho medo, sei que tenho medo.
quando tenho medo, tenho gosto de medo, tacto de medo, cheiro a medo, sinto a medo, sou o medo.
quando tenho medo.
quando sou cobarde
não sei que tenho medo.
sábado, 10 de outubro de 2009
terça-feira, 6 de outubro de 2009
red § blue
Sonata para André
ALVORECER NA JANELA
Mamã
na ponta dos teus dedos nasce a formiga
que percorre as minhas costas de manhã
mamã
coça-me as costas um poucochinho mais
mamã
cresce-me um formigueiro na espinha para receber o dia
que todos nós somos também formigas
e acordamos o sol com passos leves
mamã
escolhe-me formigas que transportem manteiga derretida
e vira-me cócegas os braços
os abraços de bom dia
enquanto o sol se pousa nas pálpebras fechadas
ainda
pousa-me uma formiga de sol
mamã
como um raio de luz suspensa
que me faça esquecer que este mundo
não gosta de crianças
que me faça lembrar que este mundo
um dia nos devolverá o riso
preso no país das esperanças
mamã
coça-me as costas um poucochinho mais
mamã
Mamã
na ponta dos teus dedos nasce a formiga
que percorre as minhas costas de manhã
mamã
coça-me as costas um poucochinho mais
mamã
cresce-me um formigueiro na espinha para receber o dia
que todos nós somos também formigas
e acordamos o sol com passos leves
mamã
escolhe-me formigas que transportem manteiga derretida
e vira-me cócegas os braços
os abraços de bom dia
enquanto o sol se pousa nas pálpebras fechadas
ainda
pousa-me uma formiga de sol
mamã
como um raio de luz suspensa
que me faça esquecer que este mundo
não gosta de crianças
que me faça lembrar que este mundo
um dia nos devolverá o riso
preso no país das esperanças
mamã
coça-me as costas um poucochinho mais
mamã
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