é possível sobreviver em formato de caveira
respirar o vento gélido que sopra nos ossos da cela interior
o coração atravessado de delírio
nada serve já nem adianta
o rosto os olhos tudo lonjura
o corpo afastado da idade
a solidão essa água mole em pedra dura
essa ilha onde tudo machuca o peito
tudo se torna tã-tã de guerra
tudo onda leve que cresce em tsunami
a vida manifesta apenas num bater acelerado
a alma abaixo de zero
o com-tacto, o sem tacto, lábio nem mão
o hálito frio da loucura sussurando dentro
o cânone fatal
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
a casa dos adeuses
tentar a calada dos olhos
a luz pela boca
era muito mais
do que a cegueira
podia evitar
quem pode ver além da sua própria floresta?
quem pode ultrapassar com pés de barro
a fronteira do trovão?
quem sabe onde ficam os sonhos
depois do deserto?
e sobretudo: quem mandou alguém sonhar?
a sede nunca pariu bons conselhos
a fome não percebe de carinho
é melhor pegar nas malas
e voltar para a casa dos adeuses
onde não faz tanto frio
e as bocas nunca erram o alvo
a luz pela boca
era muito mais
do que a cegueira
podia evitar
quem pode ver além da sua própria floresta?
quem pode ultrapassar com pés de barro
a fronteira do trovão?
quem sabe onde ficam os sonhos
depois do deserto?
e sobretudo: quem mandou alguém sonhar?
a sede nunca pariu bons conselhos
a fome não percebe de carinho
é melhor pegar nas malas
e voltar para a casa dos adeuses
onde não faz tanto frio
e as bocas nunca erram o alvo
domingo, 20 de dezembro de 2009
canção de embalar
sonha lindo asas de água
sonha lindo peito de pão
sonha lindo que nos teus braços
corre o vento e encosta o mar
sonha lindo
sonha lindo
desfralda o coração
sonha lindo enxota os medos
deixa eu pegar a tua mão
sonha lindo peito de pão
sonha lindo que nos teus braços
corre o vento e encosta o mar
sonha lindo
sonha lindo
desfralda o coração
sonha lindo enxota os medos
deixa eu pegar a tua mão
as coisas acontecem sem nome
as coisas acontecem sem nome
nascem atrás dos olhos sem darmos por elas
vivem lá a vida delas
até que um dia acordamos
do sonho da palavra divisória
e sonhamos
os nomes os olhos e as partes de trás
outros lugares outras gentes
a quem nunca daremos a mão
por longe ou por perto de mais
por nós ou por elas
por tudo e por nada
por tanto e por tão pouco
portanto
porquê
nascem atrás dos olhos sem darmos por elas
vivem lá a vida delas
até que um dia acordamos
do sonho da palavra divisória
e sonhamos
os nomes os olhos e as partes de trás
outros lugares outras gentes
a quem nunca daremos a mão
por longe ou por perto de mais
por nós ou por elas
por tudo e por nada
por tanto e por tão pouco
portanto
porquê
domingo, 6 de dezembro de 2009
apanhar o jeito
apanhar o jeito do silêncio
compreender os lábios quietos
não é questão de afeição
mas de teimosia
caminhar pelo trilho
da calada do dia é um direito
ouvir o eco voltar também
há um caminho longo até
saber que compreender
não significa aceitar
e que a palavra
é uma viagem de ida e volta
num comboio que quase nunca
sabe para onde parte
compreender os lábios quietos
não é questão de afeição
mas de teimosia
caminhar pelo trilho
da calada do dia é um direito
ouvir o eco voltar também
há um caminho longo até
saber que compreender
não significa aceitar
e que a palavra
é uma viagem de ida e volta
num comboio que quase nunca
sabe para onde parte
sábado, 28 de novembro de 2009
calar para crescer
eu sei que calas para crescer. sei que enches silêncios com pequenos retalhos de passados, presentes e futuros enquanto eu encho o tempo com palavras para te dar tempo a criar silêncios. minha palavra corrente não é surda. é apenas um jeito de disfarçar os olhos que te olham pela calada sem perder o fio das mãos que apertam os tempos idos, as seguranças que já foram, os adeuses.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
manifesto em favor das tartarugas
olhos que passeiam devagar sobre letras que dançam, braços que nunca mais chegam, mãos que encerram segredos que abrem lentos como um lótus enquanto as pessoas passam ao lado sem dar por nada, pela beleza da calma, pelas pálpebras grandes que fazem sentir os olhos lentos, não, calmos, não, lentos. lentos mesmo. quero reclamar da lentidão, escrever um manifesto em favor das tartarugas, uma faixa para recuperar o valor dos caracóis, um cheiro de chuva que me faça lembrar as minhocas no seu demorado anonimato. toda a liberdade tem um preço, a da calma não foge à regra nestes dias sem direito a ela. o chão custa tanto a atravessar, o ar tanto a cortar, a água tanto a nadar. mergulhar no silêncio é o preço de não acompanhar os tempos, tudo perfeito mas atrasado, tudo é nada, nada presta, nada serve se não é a horas.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
às vezes
às vezes acontece um raio nas costelas e a vida torna-se uma encosta
ás vezes é preciso um silêncio que só cabe numas mãos vazias
às vezes era bom gritar mas o canto do cisne é lento
às vezes dançar é uma mentira interior
às vezes amar fica tão longe
às vezes ser tão fraca
às vezes não ser
ás vezes é preciso um silêncio que só cabe numas mãos vazias
às vezes era bom gritar mas o canto do cisne é lento
às vezes dançar é uma mentira interior
às vezes amar fica tão longe
às vezes ser tão fraca
às vezes não ser
terça-feira, 10 de novembro de 2009
David e Golias
a distância entre a calma e o tormento
tem o comprimento de um olho
e a largura de um ponto de vista
saltamos da praia ao abismo
por menos de 10ºC e uma isóbara perdida
corremos da fúria para o riso
por um dá cá esse satélite
a distância entre a derrota e o sucesso
tem o tamanho de um calhau
e o peso da fé e o desespero
todo o David tem seu Golias
todo o Golias tem sua pedra
toda a pedra tem seu David e seu Golias
tem o comprimento de um olho
e a largura de um ponto de vista
saltamos da praia ao abismo
por menos de 10ºC e uma isóbara perdida
corremos da fúria para o riso
por um dá cá esse satélite
a distância entre a derrota e o sucesso
tem o tamanho de um calhau
e o peso da fé e o desespero
todo o David tem seu Golias
todo o Golias tem sua pedra
toda a pedra tem seu David e seu Golias
domingo, 8 de novembro de 2009
palavras velhas, coisas gastas
já gastámos as palavras pela rua, meu amor
Eugénio de Andrade
o último a mergulhar é uma coisa velha
Nuno Camarneiro
palavras velhas, coisas gastas
coisas gastas em palavras velhas
como o rancor o medo as paixões que ocupam tanto
é preciso enxotar as coisas gastas as palavras velhas
abrir as cancelas não basta
é urgente um urro um pontapé no chão
que rebente do centro como um coração transbordado
e percorra sem tempo todas as distâncias possíveis
desabando o chão de todas as gramáticas
que alguma vez ousaram pôr ordem nas palavras
é preciso espaço para poder abrir as mãos
e pegar no imprescindível como se uma guerra
e não olhar para trás como se um futuro
e não arrastar o corpo como se uma morte
é urgente abrir janelas para a lufada
e cancelar as contas com o mau-olhado
e não olhar para o lado como se nada
e não calar a boca como se tudo
quero ver as coisas gastas como palavras velhas
a encher a rua em desafio
quero ver ecopontos sem cor para as coisas sem cor que já sabemos de cor
e salteadas como um eco velho e gasto
quero ver a gente toda a despedir camiões sobrelotados de passado
felizes e leves dizerem adeus sem lenço nem pena
talvez com um gosto de cuspe que já foi
e alívio ao dar pela falta do que já não presta
quero ver a gente a encher a rua para fazer lugar para um sorriso largo
é preciso caminhar a passo novo
é urgente amassar um novo pão
Eugénio de Andrade
o último a mergulhar é uma coisa velha
Nuno Camarneiro
palavras velhas, coisas gastas
coisas gastas em palavras velhas
como o rancor o medo as paixões que ocupam tanto
é preciso enxotar as coisas gastas as palavras velhas
abrir as cancelas não basta
é urgente um urro um pontapé no chão
que rebente do centro como um coração transbordado
e percorra sem tempo todas as distâncias possíveis
desabando o chão de todas as gramáticas
que alguma vez ousaram pôr ordem nas palavras
é preciso espaço para poder abrir as mãos
e pegar no imprescindível como se uma guerra
e não olhar para trás como se um futuro
e não arrastar o corpo como se uma morte
é urgente abrir janelas para a lufada
e cancelar as contas com o mau-olhado
e não olhar para o lado como se nada
e não calar a boca como se tudo
quero ver as coisas gastas como palavras velhas
a encher a rua em desafio
quero ver ecopontos sem cor para as coisas sem cor que já sabemos de cor
e salteadas como um eco velho e gasto
quero ver a gente toda a despedir camiões sobrelotados de passado
felizes e leves dizerem adeus sem lenço nem pena
talvez com um gosto de cuspe que já foi
e alívio ao dar pela falta do que já não presta
quero ver a gente a encher a rua para fazer lugar para um sorriso largo
é preciso caminhar a passo novo
é urgente amassar um novo pão
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